Hospital Escola

Por: Prof. Dr. Paulo Schor.

Quanto mais nossos olhos se aproximam de objetos, menos enxergamos o que está ao seu redor. Assim prestamos atenção em cada mínimo detalhe, que ganha importância às custas da perda da imagem global, onde vários elementos compõem uma cena complexa.

Vivenciar a realidade do sistema de saúde como estudante, depois médico, nos últimos 35 anos poderia ter me deixado preso aos detalhes, ou como nós oftalmologistas dizemos, míope. Ter passado do aprendizado para a pesquisa e dai para a gestão, certamente me afastaria do maior motivo de ser médico, o paciente.

Tive a sorte de escapar dessas duas armadilhas, que me dariam mais tempo livre e menos histórias para contar. Mas não foi por acaso que essas condições privilegiadas me foram dadas, isso teve muito a ver com o cenário da minha prática desde sempre, o hospital universitário.

Esse termo significa que no lugar onde são atendidas pessoas reais, pratica-se o ensino e a pesquisa, e no Brasil, esses lugares antigamente atendiam os chamados indigentes, que após a instituição do SUS, foram absorvidos pela universalidade do sistema.

Também teria sido óbvia minha capitulação quanto a reconhecer nos doentes pessoas semelhantes, quer pela estratificação socioeconômica que a desigualdade no nosso país carrega desde sempre, ou pela própria medicina antiga, que deixava as interações o mais longe possível, com a desculpa de não “atrapalhar o tratamento”. Ainda mais num ambiente como os hospitais escola.

E exatamente porque o que parecia não foi, e não é, que explico aqui esse ambiente.

Nos corredores e esquinas – como é o caso da Vila Clementino, onde o Hospital São Paulo está inserido – aparecem do nada as chamadas “collision zones”, que são planejadas com muito custo e cuidado em hospitais privados, em torno dos cafés ou espaços médicos. As zonas de colisão juntam ao acaso (mas em geral com hora marcada pela pausa do café) gestores, médicos, professores, cientistas, alunos, e no caso do HSP, os pacientes, que estão entremeados e não são automaticamente excluídos do convívio.

Nesse campus urbano de saúde, somos provocados pela realidade, contestados pelos alunos, ameaçados pelo banho, encurralados pelos carros que não dão seta ao virar a direita, ensurdecidos pelas sirenes e obrigados a nos adaptar. Evoluir frente a diversidade (e não só adversidade). O desafio de manter junto pesquisa, ensino e assistência se explicita em cada atendimento, quando vemos avisos de novas pesquisas clínicas, aulas e discussões, o ensino ativo mais antigo e efetivo que existe, à beira do leito, nos ambulatórios e centro cirúrgico.

Em nenhum dia deixei esse espaço do mesmo modo que cheguei. Sempre mudei, sempre mudei a vida de alguém. Da orientação sobre onde fica a “casa da mão”, até as cirurgias de transplante de córnea. Toquei as pessoas e fui tocado por elas, e assim me mantenho.

Obrigado hospitais escola, e parabéns Hospital São Paulo, por fazer parte fundamental dessa rede. Vida longa ao modelo que inclui e resiste !!

Prof. Dr. Paulo Schor